Estamos em um filme apocalíptico


Há menos de um mês, nossas vidas estavam normais. Eu estava trabalhando e estudando normalmente. As aulas haviam começado há duas semanas e eu já não tinha tempo pra quase nada (muito menos pra um blog).
Fui na formatura de jornalismo do meu namorado e presenciei um discurso de resistência contra o presidente, feito pelo paraninfo, professor Felipe Boff. E pasmem, o professor foi vaiado pela plateia de convidados. Convidados estes que eram amigos e familiares de quem estava se formando em fotografia, comunicação digital e jornalismo - profissão essa que Seu Jair repudia e que o paraninfo defendeu com unhas e dentes em sua fala. As vaias foram tão agressivas que o professor teve que sair escoltado pelos seguranças da universidade. 
O discurso de Felipe Boff, aclamado por seus alunos, relatava e repudiava os ataques à imprensa feitos pelo presidente (incluindo a frequente disseminação de fake news feita por ele). Parentes de futuros comunicadores se sentiram ofendidos: "estragou a formatura", disseram alguns. Para eles, não é nada demais ter um representante que ataca a imprensa diariamente e passa informações falsas à torto e à direito. Pois bem. 
Vejamos os acontecimentos seguintes: por uma semana inteira, este era o assunto mais falado: nas aulas, os professores passavam atividades utilizando matérias sobre o ocorrido. Matérias que foram publicadas no G1, GaúchaZH, Folha de São Paulo, Estadão, Jornal VS e até mesmo pelo Guia do Estudante (parceiro da Capricho).


Em menos de uma semana, as próximas formaturas (aproximadamente a partir do dia 14) tiveram uma alteração: os formandos teriam que fazer a cerimônia sem plateia. E outras cerimônias foram canceladas, substituindo o momento memorável por entrega de diploma em gabinete. E não, não foi por causa de um discurso. Coincidentemente, uma semana antes de uma catástrofe acontecer, um professor tentou avisar sobre o perigo de se ter um presidente assim (e foi vaiado).
O Coronavírus (Covid-19), que víamos atingir a China no começo do ano, começou a atingir outros países, como Itália, França e Estados Unidos, por exemplo. A Itália já está em frangalhos (isso em menos de duas semanas após o vírus ter chegado lá). E, há pouco tempo, chegou ao Brasil.
No país, já temos 2589 casos confirmados(dia 26/03) e 63 mortos. No Rio Grande do Sul, no dia 25, 162 casos da doença foram confirmados. A primeira morte ocorreu na quarta, dia 25. Só em Porto Alegre são 87 casos positivos. 
 A princípio, a nova doença causada pelo vírus parece com uma gripe, pois os principais sintomas são febre, tosse seca e falta de ar (também pode haver diarréia, cansaço, fadiga, congestão nazal, coriza, e dor de garganta). Mas ao contrário do que o presidente repetiu algumas vezes (uma delas foi em pronunciamento feito em rede nacional de televisão), essa doença não é só uma gripezinha. Essa doença mata. O vírus fica alojado no corpo por 14 dias até surgirem os sintomas e, ao sair na rua, você pode contraí-lo e passar para outras pessoas. 

O Estado e os municípios decretaram estado de calamidade. O comércio fechou. Quem, porventura, precisa sair na rua, se depara com diversas lojas fechadas, ruas vazias (ou não, mas deveriam estar), tal qual num filme pós-apocalíptico. São poucos os lugares que podem continuar abertos, e são, no caso, os que prestam serviços essenciais: hospitais, postos de saúde, supermercados, farmácias, etc.
Existem algumas orientações para diminuir a pandemia: evitar lugares com aglomerações de pessoas, evitar contato físico, espirrar/tossir na dobra do cotovelo ou num lenço descartável, não tocar no rosto (especialmente olhos, nariz e boca) e lavar as mãos com frequência (na falta de água e sabão, usar álcool em gel). E o mais importante: se possível, ficar em casa. 
Quem pode, foi liberado ou está fazendo Home Office, e as universidades já suspenderam suas aulas ou migraram os cursos presenciais para EAD. Pouco antes do decreto de calamidade, os supermercados estavam lotados de pessoas estocando comida, álcool em gel e produtos de higiene desesperadamente, com medo de passar fome e não ter mais nada para comprar. Isso gerou aglomeração de pessoas e fez com que outros ficassem sem os produtos - nem todos têm condições financeiras de estocar).


Atualmente, álcool em gel é uma falta geral em farmácias e mercados (pelo menos em São Leopoldo, cidade gaúcha onde eu moro, foi o que aconteceu). A quantidade de pessoas que pode entrar nos estabelecimentos ao mesmo tempo está sendo limitada. A quantidade de produtos que cada um pode comprar por vez, também. Em frente aos balcões, há faixas para garantir que os clientes mantenham um metro de distância do operador de caixa (e não é permitido entrar acompanhado se o acompanhante não estiver lá para comprar). Há horário especial para os idosos.  Volta e meia, um carro de som da Guarda Civil Municipal passa pelos bairros orientando os moradores a não saírem de suas casas. E diversos serviços que eram feitos pessoalmente, estão sendo feitos de forma virtual (até mesmo renovações de estágio, que exigiam todo um processo de coleta de documentos).

As pessoas do grupo de risco são as mais vulneráveis e tem grandes chances de vir a óbito por causa do Coronavírus: idosos com mais de 60 anos (pois tem um sistema imunológico envelhecido e frágil, que não os protege muito de doenças em geral), gestantes, lactantes, fumantes e pessoas com diabetes, doenças pulmonares crônicas ou câncer. 
Se você não faz parte do grupo de risco, tem poucas chances de você pegar essa doença e não sobreviver. Pensando nisso, muitos egoístas que foram liberados de seus serviços continuam fazendo seus rolês na rua, como se nada estivesse acontecendo. Assim, correm o risco de voltar contaminados para casa, adoecer e matar seus familiares. Ou de ficar doente também e morrer, afinal, poucas chances não significam chance nenhuma.
Também tem as pessoas que estão sendo obrigadas a sair, pois trabalham com serviços essenciais ou porque a empresa ainda não liberou. Fora que, ainda há a necessidade de comprar comida de vez em quando, remédio, etc. A situação é muito grave, e se torna ainda mais grave quando se tem um presidente que menospreza o perigo que o vírus representa e ainda incentiva as população a saírem se seus confinamentos.
Levando em conta que seu gado ainda é relativamente grande, esse tipo de posicionamento é uma ameaça à segurança e a saúde nacional. Quem ainda, seja lá por qual motivo, ainda acredita que ele tem razão em tudo o que diz, possivelmente vai optar por colocar a si e outras pessoas em risco.

Há poucas semanas eu estava tentando explicar para algumas pessoas o quanto são graves as palavras que ele profere em público, o quão grave é ele ainda ter quem goste dele, e o quão grave é um professor universitário ter sido vaiado por discursar sobre as ameaças constantes à imprensa. Agora não apenas teremos uma resposta concreta sobre isso, como também a sentiremos na pele da pior forma possível.
Não é um momento de bradar "eu avisei" (por mais que seja tentador em alguns momentos), e sim de tomar todos os cuidados que a OMS nos orienta e também de informar, da melhor forma possível, as pessoas que conhecemos (especialmente as mais velhas, que não têm discernimento sobre o que é fake e o que é real quando recebem algo no whatsapp).



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QUEM ESCREVEU

Amanda Krohn é feminista, gosta de assistir séries (especialmente Friends), ler livros (seus favoritos são distopias com requintes de crítica social), de brincar com a sua cadela, Mina, e de dormir. Convenhamos que, para uma universitária, cada hora de sono que se pode ter é sagrada.

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